Você se comporta como um inovador?

Você se comporta como um inovador?

10 de janeiro de 2018
 |  Renata Lyra R. Oliveira

As pessoas costumam esperar por uma condição perfeita para inovar ou para realizar uma transformação, mas na maioria dos casos essa condição nunca existirá.

Colocar uma inovação em prática geralmente é um processo difícil e que depende de muitas coisas. Principalmente no setor público, onde as transformações e inovações tendem a ocorrer mais lentamente do que o “normal” devido a uma estrutura burocratizada e pouco permeável a mudanças.

Mas a notícia boa é que há algumas formas de influenciar positivamente ou até mesmo de provocar uma transformação. Uma dessas formas, que com certeza depende mais de cada indivíduo do que de qualquer outra coisa, é o comportamento.

Um bom exemplo sobre esse assunto vem do Departamento de Inovação do Governo da Austrália, que elaborou uma lista com os principais comportamentos que podem ser adotados para inovar no Serviço Público (Innovation Behaviours for the Public Service – beta version). Essa lista já foi refinada para uma versão beta (após receber contribuições sobre a primeira versão – alpha).

Para o Departamento de Inovação do Gov. da Austrália, inovação diz respeito a pessoas – no caso, sobre conseguir apoio a uma ideia, de ter pessoas realmente atuando em uma ideia ou pensando em como essa ideia é útil para outras pessoas. Por se tratar de pessoas, trata-se de como nós interagimos com os outros e os comportamentos que adotamos.

É bom esclarecer que a intenção não é criar mandamentos, regras comportamentais ou “autoajuda” (!), mas uma referência para reflexões do tipo: “Meu comportamento ajuda outras pessoas a tentarem o novo ou sugerirem novas ideias? Estou de fato atuando para inovar ou buscando o apoio dos outros para uma inovação?”. Em outras palavras, é um guia que pode te ajudar a apoiar a inovação por meio de suas ações e a ter um parâmetro para “checar” se está agindo ou reagindo da maneira mais útil.

A lista separa um conjunto de comportamentos para os inovadores (as próprias pessoas que buscam inovar) e outro para os líderes (que buscam incentivar outras pessoas a inovarem), seguida de um pequeno resumo sobre cada ponto. Mesmo que muitos desses comportamentos listados não sejam uma grande novidade para você, vale a pena dar uma conferida para calibrar seu repertório! A seguir, a dita cuja em tradução livre:

 

Para inovadores

  1. Faça perguntas – sobre os outros e sobre si mesmo. Inovação tem a ver com mudar nosso comportamento, a forma como fazemos as coisas e como entendemos problemas e soluções. Ao questionar algum aspecto do status quo (ou do “é assim porque sim”), você se abre para enxergar diferentes opções e formas de fazer as coisas. Permita-se questionar “e se…”, pergunte como e por que as coisas são feitas da forma que são, questione se pode haver uma maneira melhor ou diferente de ver as coisas ou se há outras pessoas que possam agregar insights. Utilize as respostas para essas perguntas para compor um quadro mais rico e completo da situação atual, com os desafios e caminhos possíveis.

 

  1. Teste as coisas – experimente um pouco (ou muito). A inovação é incerta. Ou seja, se você sabia exatamente o que iria acontecer, então não será inovador. Para diminuir essa incerteza ou insegurança você terá de experimentar de alguma forma para testar a ideia e o que acontecerá. A forma mais fácil de experimentar é tornar a ideia real ou tangível de algum modo, como uma maquete, um protótipo ou ensaio (encenação), e assim conhecer minimamente as consequências dessa nova ideia ou transformação, bem como falhas, críticas ou falta de reações.

 

  1. Conte histórias – a quem isso interessa e por quê? Por que isso tornará as coisas melhores? O que isso nos permitirá fazer? Como essa ideia irá contribuir para prioridades ou para o alcance de melhores resultados? É fácil uma nova ideia parecer um “trabalho a mais”, uma distração do negócio principal. Porém, se ela for parte de uma história, se você puder identificar como e por que ela interessa, então a inovação pode fazer parte do trabalho já existente, em vez de representar “mais trabalho”.

 

  1. Foque no problema a ser resolvido – não se apegue à sua própria ideia. Há um mundo de ideias, mas quais delas serão as melhores para o problema em questão? É muito fácil se apegar a uma única ideia, porém, o importante é saber para onde a ideia pode levar. Às vezes, haverá melhores ideias ou as circunstâncias farão com que mude de direção. Focar em uma ideia específica pode causar um bloqueio se essa ideia não funcionar conforme o esperado. Por outro lado, o foco no problema pode ajudar a manter o impulso, independentemente das ideias que estão sendo testadas.

 

  1. Continue tentando – acredite no poder da persistência. Fazer com que as pessoas mudem seu comportamento, para mudar a forma como pensam sobre algo, pode ser difícil. As ideias podem não funcionar como o esperado. Outras pessoas podem dizer “não” ou descartar sua ideia. O desenvolvimento de uma proposta inovadora pode exigir sair da sua zona de conforto ou envolver novas habilidades ou métodos. Uma nova ideia pode significar que você precise sair e construir novas redes ou encontrar apoio em diferentes círculos. Se quiser inovar, você precisa persistir nisso.

 

A essa boa lista eu ainda acrescentaria o seguinte ponto (trabalho colaborativo!):

  1. Busque boas referências – conheça o que os outros fazem por aí. Não subestime o poder de um benchmarking. Pessoas que já tentaram inovar ou fazer algo de um jeito diferente, seja no serviço público ou no setor privado, sem dúvidas já erraram muito. Podemos pular algumas etapas e economizar em erros (esta sim é uma economia relevante!) simplesmente aprendendo com os erros ou com a expertise dos outros. Dessa forma, uma boa dose de proatividade e curiosidade para descobrir quem já tentou novas formas de fazer algo que você está tentando fazer pode te fornecer não somente boas lições, mas também insights para novas ideias e soluções. Por falar nisso, recentemente o Departamento de Modernização da Gestão Pública – INOVA/MPDG visitou o Government Digital Services (GDS), em Londres, para conhecer in loco o que eles andam fazendo por lá. Confira a série de posts sobre a visita.

 

Para líderes

  1. Delegue poder aos outros – compartilhe onde a inovação é mais necessária. A inovação frequentemente funciona melhor quando é uma atividade estratégica. Uma das formas mais fáceis de capacitar outras pessoas para inovar é deixá-las saber onde uma inovação é mais necessária ou onde ela é mais solicitada. Isso pode ajudar as pessoas a manterem o foco naquelas ideias que mais se encaixam nas necessidades ou metas estratégicas.

 

  1. Convide os outliers – demonstre que a diversidade é valorizada. A inovação envolve novas maneiras de ver as coisas e isso requer acesso a diferentes redes, grupos, experiências, modos de trabalhar e de pensar, e também requer incentivo ao debate construtivo. Uma maneira de fomentar um ambiente que valorize a diversidade é convidar ativamente pessoas com perspectivas diferentes, de dentro e de fora de sua organização. Quem são aquelas pessoas que possuem uma compreensão nova ou diferente sobre o seu mundo? Convide-as para o diálogo e mostre que está aberto para todos os tipos de insights.

 

  1. Diga “Sim, e…”, ao invés de “Não, porque…”. Pode ser difícil colocar uma ideia nova para frente, mas é muito fácil impedir alguém de fazer isso. “Uma sobrancelha levantada ou uma expressão cética pode matar uma ideia antes mesmo de ela começar a respirar”. Tentar colocar uma ideia em prática pode ajudar a assegurar que você não perderá uma ótima maneira nova de fazer as coisas. Isso ajuda as pessoas a perceberem que você valoriza ideias e criatividade e que não se espera que essas ideias sejam perfeitas logo de cara.

 

  1. Não seja reativo – aprecie os erros experimentais. As coisas darão errado. Haverá falhas durante o aprendizado em direção a uma inovação. Algumas ideias, quando não a maioria delas, darão em nada. As pessoas tentarão coisas que não vão funcionar. Uma reação adversa a uma tentativa inovadora pode impedir qualquer nova inovação. Forneça orientação sobre onde há espaço para experimentação mais livre e onde há espaço apenas para testes e verificações mais rigorosas. Crie o espaço para a experimentação “segura”. Cultive o aprendizado reflexivo, onde os erros experimentais são discutidos e aprendidos, e não escondidos ou vistos como vergonhosos.

 

  1. Apoie os inovadores e compartilhe histórias de sucesso. Inovar pode ser difícil, pois pode envolver ir contra o status quo ou trabalhar em alguma coisa que não irá se encaixar, de início, a uma organização. Ao desenvolver uma nova iniciativa você pode se deparar com muitos obstáculos. Ideias inovadoras requerem tempo e recursos para se transformarem em propostas reais e testadas. Elas precisarão de proteção contra as pressões contínuas do “velho jeito de trabalhar”. Assim, os inovadores precisam ser apoiados. Compartilhar histórias de sucesso pode ajudar a conseguir um apoio mais amplo, a demonstrar o valor que a inovação pode trazer e a mostrar que ela pode ser realizada, além de ajudar a conectar pessoas que já implementaram algo novo com aquelas que ainda estão tentando.

 

Sobre esse último ponto, vale acrescentar que o compartilhamento não só de histórias de sucesso, como também de histórias de fracasso pode ser muito produtivo. Recentemente, em Brasília, um grupo de inovadores organizados (do iGOVnights – já ouviu falar?) fez um encontro sobre histórias de falhas. Na visão de um dos colegas presentes, foi muito interessante essa perspectiva por todo o aprendizado e apoio que foi possível extrair do que falhou. Fica a dica!

 

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