Quem ouviu no Ipiranga?

Quem ouviu no Ipiranga?

12 de janeiro de 2018
 |  Marcos Flores

O Hino Nacional fala, em sua primeira estrofe, sobre o grito da independência dado às margens do Rio Ipiranga, e começa declarando “Ouviram do Ipiranga.”. Mas quem ouviu?

Pode parecer uma pergunta boba, mas pouquíssimas pessoas acertam sua resposta, e muita discussão já aconteceu a este respeito. Há quem diga que quem ouviu não aparece no hino, é um “ouviram” geral, todo mundo e ninguém em particular, o famoso “sujeito indeterminado” da língua portuguesa. Outros juram que é o “povo heroico” do terceiro verso, que ouviu o “brado retumbante” de Dom Pedro I. Há gente, mais afeita a mistérios e conspirações, que chega a afirmar que quem ouviu foram os portugueses, que o autor não colocou explicitamente no hino para evitar estremecer ainda mais as relações Brasil-Portugal.

Mas por que existe tanta dúvida a este respeito?

Porque o hino não foi feito pensando em sua capacidade de ser compreendido. Espelhando-se na linguagem poética, o autor da letra, Joaquim Osório Duque Estrada, teve como maiores preocupações a beleza e sonoridade do hino, assim como o uso de uma linguagem culta que reforçasse a sua imagem como como símbolo da Pátria. A mensagem escrita, neste caso, era secundária em relação à mensagem estética e musical (ou de modo mais simples, o modo como o hino seria “visto” era mais importante do que ele ser compreendido).

Logo o hino, ao fazer uso de inversão na ordem tradicional das frases, uso de termos e expressões de pouco uso popular e larga utilização da linguagem figurada tornou o hino em um dos textos de mais difícil compreensão de nossa cultura.

Se em um símbolo, e principalmente em uma música, isso é compreensível e, em certa medida, aceitável, o mesmo não acontece quando o objetivo do texto é, justamente, a transmissão de informações e instruções. Neste caso, as técnicas do hino são praticamente uma “lista do que não fazer” em seu texto. E ainda assim, infelizmente, é o que mais encontramos nas comunicações governamentais ao cidadão. Uma rápida pesquisa pelos sites e publicações governamentais nos mostrará uma excessiva paixão pela “aparência de erudição” e “beleza da prosa” do que pela clareza e eficiência da informação transmitida. “Beneplácitos”, “data vênias”, “diuturnos”, os famigerados “venho por meio desta”, entre outros, infestam nossos canais de informação. Se nosso objetivo é transmitir a informação ao cidadão, por que nos esforçamos tanto para dificultar o seu entendimento?

A grande maioria das inovações e progressos científicos das últimas décadas tem íntima relação com a comunicação, com o objetivo de torna-la mais rápida, mais fácil e mais ampla. Para acompanharmos o mundo em que vivemos e com que temos que lidar, uma das nossas primeiras e mais básicas preocupações tem que ser a melhora de nossa comunicação com o nosso chefe e cliente, o cidadão.

Ah, a reposta à pergunta do início? Quem ouviu o grito foram as margens do Ipiranga, mas o autor, ao inverter não só a ordem das orações mas também da frase inteira, conseguiu confundir bem o seu significado. O segredo está na crase, ou na ausência dela: se o “as” de “as margens plácidas” levasse crase, isso indicaria que o grito foi ouvido naquele lugar. Como não há crase, as margens plácidas do Ipiranga é que ouviram o brado retumbante (grito forte) do povo heroico.

Até a próxima…

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