Primeiros passos para a Comunicação Não-Violenta 1

Primeiros passos para a Comunicação Não-Violenta

26 de setembro de 2018
 |  Talita Dantas
CNV – O que não é, o que é

Ao contrário do que muita gente acredita, Comunicação Não-Violenta (CNV), método criado por Marshall Rosenberg, não tem necessariamente a ver com falar baixinho, procurar sempre agradar ou sempre ceder.

Em verdade, é um modo de melhor alcançar a satisfação dos interesses de ambas as partes envolvidas num conflito ou negociação. Mais que um método, é uma maneira de viver, uma proposta de conexão autêntica, conosco mesmos (nível intrapessoal); com os outros (nível interpessoal); com o mundo ao nosso redor (nível sistêmico, nosso relacionamento com as instituições).

Pressupostos da CNV

Em essência, nós já sabemos nos comunicar não-violentamente, porém fomos educados a fazer o contrário. Ou seja, para a CNV, a generosidade, o dar naturalmente, é o estado natural do ser-humano. Todavia, temos o hábito de nos comunicar de modo violento. Isso porque  fomos ensinados a competir pela razão, a jogar um jogo moralista que envolve punição e recompensa. Dessa forma, perdemos de foco a felicidade e brigamos para estarmos certos, em vez de concentrar nossas forças em tornar a vida mais maravilhosa.

Nesse jogo, perdemos a conexão uns com os outros e maximizamos a infelicidade. Todos saem perdendo. Partimos da premissa equivocada de que quem está errado merece ser punido e, sendo violentos, geramos ainda mais violência.

Primeiro passo – autorresponsabilidade

Para mudar o jogo, é preciso mudar a perspectiva. E o primeiro passo em direção a isso é a autorresponsabilidade,  a admissão de que sempre temos escolha. Nosso sistema atual, com suas propostas burocráticas e hierárquicas, facilita a atribuição da responsabilidade sobre o que decidimos e sentimos a terceiros. “Fiz isso porque meu chefe mandou”, “porque ele me provocou”, “porque todo mundo faz”… Você pode até não gostar das escolhas que se apresentam. Pode ser que nenhuma delas pareça melhor que a(s) outra(s), mas isso não significa que a escolha não exista e que você é obrigado a algo.

Assim, escolher não fazer o que o chefe mandou pode não me ser atrativo, pois pode me custar o emprego ou a promoção. No entanto, é preciso ter em mente que sou eu quem está escolhendo agir em consonância com o que me está sendo pedido ou ordenado.

O perigo de nos isentarmos de nossa responsabilidade.

Em seu livro, “Scrum, a arte de fazer o dobro do trabalho na metade do tempo”, num raciocínio que vai ao encontro daquele proposto pro Marshall, Jeff Sutherland, relata experiência realizada por Milgram em 1974, a que se refere o artigo “The Perils of Obedience [Os perigos da obediência]”, no qual estudantes universitários, induzidos a acreditar que faziam parte de um experimento, davam choques num ator, mesmo diante de demonstrações de dor e sofrimento, até que ele encenasse a própria morte, apenas em virtude das ordens recebidas de alguém que se passava pelo cientista condutor da pesquisa. “Faz parte do experimento e você deve continuar”.

Para Marshall, nos tornamos incrivelmente perigosos quando nos desvencilhamos da responsabilidade por nossos atos. Um claro exemplo disso é o holocausto nazista, em que os generais afirmavam que seus atos decorriam apenas de ordens superiores, ou seja, não tinham escolha (supostamente).

Em CNV, buscamos admitir nossa responsabilidade pelo que escolhemos e sentimos. Imputar ao outro a responsabilidade por nossos sentimentos é tido como um ato de violência

Separe fato de opinião

A autorresponsabilidade pressupõe algo inicialmente difícil, separar fato de opinião. O que é muito semelhante à proposta de Ury no tocante a separar as pessoas do problema e já denota a proximidade entre a abordagem proposta por um e outro autores. Devemos julgar não as pessoas, mas que necessidades são ou não necessidades.

Entenda o sentimento e a necessidade

Observado o fato, procuramos compreender o que sentimos quando ele ocorre, a fim de identificar que necessidades nossas clamam por atenção naquele momento. Nesse ponto é crucial discernir o que é sentimento e o que é julgamento, uma vez que os sentimentos podem nos conectar ou distribuir mais violência. “Eu me sinto assim, porque você…”, “você me faz sentir” são expressões violentas. Em vez delas, procuramos chamar a responsabilidade para nós mesmos, uma vez que não temos condições de saber com exatidão o que os outros pensam ou sentem. Dessa forma, expressões adequadas seriam: “Quando eu vejo/ouço … eu sinto … porque eu preciso de …”.

Evidenciados os fatos, sentimentos e necessidades, podemos só então passar para o pedido, que nada mais é que a estratégia que escolhemos para alcançar nossas necessidades. É muito importante que essas duas coisas não se confundam, já que uma estratégia é apenas uma das maneiras por meio das quais podemos alcançar a satisfação de nossas necessidades. Uma e não “a” maneira. Ou seja, é preciso estar aberto a possibilidades outras.

Pedidos devem ser claros e devem expressar uma ação positiva. Assim, dizemos aquilo que queremos em vez daquilo que não queremos. Isso porque a expressão do que não queremos não deixa evidente o que queremos, além do que, a tentativa de livrarmo-nos de algo torna atraente a violência.

Peça em vez de exigir

Outra distinção importante de Marshall Rosenberg é a que separa pedido de exigência. Um pedido implica necessariamente a possibilidade de aceitarmos que o outro também tem seus sentimentos e necessidades e pode não estar disposto a fazer naquele momento aquilo que estamos solicitando. Nesse contexto, é importante não nos vitimizarmos ou emburrarmos a fim de coagir o destinatário do pedido a uma aceitação manipulada, típica do sistema de punição e recompensa, pautada num sentimento de culpa. Isso é equivalente a dizer “ou você faz o que eu digo ou você será o responsável pela minha mágoa”.

Você pode sentir-se chateado porque sua estratégia preferida não funcionou. Só não pode pretender imputar ao outro a responsabilidade por um sentimento seu. Em verdade, espera-se que o outro apenas faça o que lhe está sendo requerido se puder fazê-lo com a “alegria de uma criança a alimentar um pato”. Enquanto as pessoas ouvirem nossos pedidos como exigência, enquanto não se
compreenderem livres para aceitar ou não, sem medo de serem punidas, elas só têm duas opções: submissão ou rebelião.

Ficou interessado? Confira a TED Talk de Carolina Nalon sobre o assunto:

 

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