Planejamento ou fazejamento?

13 de dezembro de 2017
 |  Gustavo Trindade

O mundo está em constante mudança e a cada dia somos cobrados a entregar melhores serviços à população.

Fazer mais com menos já não basta e se tornou um jargão comum, previsível e obsoleto por tamanha obviedade e incapacidade em satisfazer plenamente as reais necessidades do cidadão do século 21.

É hora de repensar os valores e práticas da burocracia para de fato inovar no setor público, pois somos desafiados a cada dia a buscar novas formas de lidar com antigos problemas, mas também a enfrentar questões ainda pouco conhecidas ou exploradas e de uma forma cada vez mais ágil.

O modelo burocrático de gestão, baseado em uma lógica de comando e controle, com hierarquia, centralização e rigidez excessiva de procedinentos, fez sentido e foi inspirado em um contexto de industrialização em que se buscava eficiência para oferta em larga escala de bens e serviços padronizados, com fluxos e rotinas bem definidos.

Mas a forma com que os desafios se apresentam no campo das políticas públicas na atualidade está longe de seguir uma lógica linear ou mesmo similar a uma linha de produção.

No entanto, ainda seguimos reféns desse modelo mesmo conscientes de que precisamos pensar e agir diferente para obter melhores resultados em relação aos serviços que prestamos ao cidadão.

Nos preocupamos demasiadamente com formalidades e projetamos soluções de forma centralizada e autorefida no interior dos gabinetes e repartições públicas, com pouco ou nenhum tempo para testar e validar nossas convicções, por mais bem intencionadas que sejam.

Ignoramos todo viés cognitivo a que estamos sujeitos nos casulos administrativos e criamos uma ficção baseada em suposições e cenários para elaborar planos e programas bem intencionados e consistentes sob o prisma teórico-conceitual, porém muitas vezes desconectados da realidade, que é sempre mais complexa e imprevisível do que costumamos considerar.

É justamente nesse ponto que vale aqui a reflexão entre o planejamento e o “fazejamento”.

Para entender melhor essa diferença basta comparar a dinâmica de uma escola de samba com a de uma escola tradicional. A primeira ensaia o ano inteiro o que vai executar em três dias, enquanto a segunda planeja em três dias o que vai executar o ano inteiro.

Ouvi essa analogia em uma palestra do filósofo contemporâneo Mário Sérgio Cortella e pude perceber que a escola de samba faz da prática o seu planejamento e vai aprendendo com os erros, corrigindo as falhas e refinando o projeto idealizado até o dia da entrega.

Durante o percurso ela alinha expectativas, busca inspiração, engaja, projeta, ensaia. No final é avaliada pela entrega e não pelo plano, que é apenas uma referência, um ponto de partida.

O que importa é a jornada e, por razões óbvias, o resultado final, mesmo que haja falhas ou que a entrega seja diferente do que foi inicialmente idealizado no papel. Por isso dedica maior parte do seu tempo fazendo.

Quando separamos o planejamento da execução, concentramos muita energia com hipóteses tentando prever o imprevisível e criamos uma ficção que nos aprisiona no imaginário teórico de uma solução supostamente ideial que não foi testada e nem validada.

Talvez por isso não toleramos falhas. Somos capazes de justificar os erros, mas não nos permitimos aprender por meio dele. Separamos o planejamento da execução e investimentos tanto tempo e energia no “antes” que o “durante” e o “depois” se tornam reféns dessa armadilha burocrática.

Voltar atrás ou corrigir a rota de um navio de cruzeiro é bem mais dificil do que manobrar um pequeno bote.

Se quisermos inovar no serviço público precisaremos criar uma cultura de “fazejamento” que integre planejamento com execução de forma ágil e flexível para evitar as armadilhas do padrão burocrático, que pode nos levar a executar um plano supostamente perfeito para cumprir objetivos de papel.

Ampliar a conexão entre as pessoas, reduzir os excessos burocráticos e incorporar a experimentação como parte integrada do planejamento ainda são desafios para quem deseja inovar no setor público, pois ainda somos induzidos e cobrados a planejar como se fosse possível prever o turbilhão de incertezas e variáveis não controladas do processo de formulação e implementação de políticas públicas.

Para inovar no serviço público precisaremos repensar esse modelo e incorporar novas formas de pensar e agir em nossas rotinas de planejamento, participação social e controle.

Vamos em frente, vamos inovar!

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1 Comentário

  • Izabel Garcia
    Izabel Garcia disse:

    Kkkkkk! Adorei o trocadinho do “fazejamento”!
    Só não sei se concordo muito com a analogia da escola de samba… é fácil errar quando não tem ninguém vendo. Como vc mesmo disse, ela só é avaliada pela entrega final. Pra gente é diferente, somos avaliados a cada pequena entrega. De qualquer forma, concordo ser essencial incorporar a experimentação como parte do planejamento!

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