Inovar o quê? Como? Quando?

Inovar o quê? Como? Quando?

28 de novembro de 2017
 |  Marcos Flores

Prepare-se para os efeitos especiais.

Começa uma música de fundo, um rock metal, mas com início lento…

Aparece a imagem de uma cidade moderna, pessoas andando nas ruas, trabalhando nos prédios, carros correndo pelas avenidas… Congela. As pessoas e carros começam a se mover para trás, o dia, que já estava no final da tarde, começa a clarear, isso vai ganhando velocidade, os edifícios vão se desconstruindo, a cidade vai desocupando o solo, diminuindo de tamanho, agora é uma cidade só de prédios baixos, que também passam a ser desconstruídos para serem, por sua vez, substituídos por prédios de fachadas antigas e em desuso, a tela vai esmaecendo, escurecendo….

Tela preta.

 

Flashback #1

Inglaterra, 1665

 

Londres está em polvorosa. Uma praga, muito parecida com a Peste Negra – que matou um terço da Europa três séculos antes – se espalha pela cidade, matando milhares de pessoas, e as autoridades parecem incapazes de controlá-la.

Como sempre ocorre neste tipo de situação, um rumor se espalha de que eram os gatos que estavam espalhando a praga. A população, querendo combater ou, ao menos, controlar o contágio da doença, começa a matar todos os felinos da cidade.

Com este extermínio, a população de ratos da cidade (os reais vetores da doença) cresce exponencialmente nos meses seguintes, multiplicando em muito as instâncias de contágio da doença entre seres humanos. A Grande Praga de Londres terminou por matar, em 18 meses, quase 100.000 pessoas, ou um quinto da população londrina.

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Flashback #2

China, 1958

A República Popular da China completava o 9º ano após a revolução que levou o Partido Comunista Chinês ao poder quando o seu líder, Mao Tsé-Tung, resolveu agir para eliminar o que era considerado uma das grandes pragas do país: a população de pardais. Mao ordenou aos funcionários governamentais que matassem todos os pássaros deste tipo que encontrassem, e a medida foi bem sucedida, a espécie foi praticamente extinta do território chinês.

Três anos depois a fome assola a China, resultando na morte de 45 milhões de chineses. Ocorre que, com a morte dos pardais as suas presas, os gafanhotos, se viram livres do controle natural de sua população e puderam se multiplicar livremente, o que arrasou com as colheitas do país.

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Flashback #3

França, 2015

O governo francês decide modernizar suas linhas ferroviárias, que abrangiam mais de 1.300 estações no país. Com um investimento de aproximadamente 15 bilhões de dólares, eles inovaram todo o sistema.

Quando os novos vagões chegaram, no entanto, houve um problema: eles não cabiam nos trilhos. Os responsáveis pela compra dos carros, não cientes das dimensões das linhas, haviam encomendado eles grandes demais. O governo francês acabou por gastar extras 55 milhões de dólares para reforma-los para que pudessem ser utilizados nos novos trilhos.

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Brasil, tempo presente

O que estes três recortes no tempo têm em comum? Todos foram tentativas bem intencionadas e honestas de resolver um problema e melhorar as condições de vida de uma população. E todas resultaram em enormes prejuízos por um mesmo motivo: desconhecimento da realidade que se tenta modificar.

A população inglesa, confiando no “saber do outro” e se guiando pelo senso comum, ao invés de realmente conhecer os detalhes da situação, acabou por causar o crescimento do problema ao invés de resolvê-lo. O governo chinês, confiando no que conhecia dos pardais mas esquecendo que problemas nunca são pontos isolados mas partes de um contexto (que eles não conheciam o suficiente) acabou trocando uma situação ruim por uma muito pior. O governo francês, por sua vez, resolveu modernizar um serviço que prestava à população, mas esqueceu de antes conhecer os detalhes deste serviço, e acabou tendo que realizar mudanças corridas e trazendo prejuízo aos cofres públicos franceses.

Todas estas situações nos alertam para a mesma lição: É necessário conhecer uma realidade para ser capaz de modifica-la de forma efetiva. As melhores intenções, teorias e ferramentas se tornam inúteis, e até mesmo prejudiciais, se não são guiadas pelo estudo do real.

É uma opinião generalizada (inclusive dentro da própria Administração Pública) que precisamos melhorar os serviços prestados à sociedade. Mas para saber como melhorar, qual a forma mais efetiva de realizar estas mudanças, precisamos antes saber, em detalhes, o que é este conjunto que pretendemos modernizar.

Esta é a razão pela qual o Censo de Serviços Públicos do Governo Federal está sendo realizado em parceria pela Casa Civil, pelo Ministério do Planejamento e pela ENAP. O Censo está levantando quantos e quais são os serviços de transação direta com o usuário que existem na Administração Pública Federal, buscando os detalhes do processo, como quem presta, como presta, aonde presta, o que pede do usuário e assim por diante. Só através do conhecimento de nossos serviços que poderemos entender onde acertamos, onde erramos e como é possível melhorar o que não está bom sem prejudicar o que funciona.

E durante o processo temos encontrado muitos pontos que podem ser melhorados, como o fato de que grande parte dos documentos que pedimos para os usuários dos serviços públicos são documentos que a própria Administração Pública produz, e que podem ser conseguidos através do compartilhamento de informações entre órgãos, diminuindo assim o trabalho para o cidadão. Este, inclusive, foi um dos insumos para o Decreto 9.094/2017 que, entre outras coisas, proíbe os órgãos públicos de exigir documentos do usuário que constem de bases de dados da APF.

Estamos descobrindo outras coisas muito interessantes também sobre a máquina pública brasileira, mas isso terá que ser assunto para outro post, porque eu já me alonguei demais por agora.

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Entro na máquina do tempo, ela começa a girar cada vez mais rápido e finalmente, com um clarão, desaparece rumo aos infinitos temporais…

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