Ideias 2

Ideias

19 de dezembro de 2017
 |  Marcos Flores

Seja bem-vindo postulante.

Você chegou aqui. Você passou por todos os ritos e provações que lhe colocamos, você demonstrou para nós seu valor, e agora está pronto para se juntar a nós e conhecer os mais profundos segredos de nossa ordem. Você conquistou este direito, e agora iremos entregar o seu tão sonhado prêmio.

Você está pronto?

Você está preparado para conhecer o segredo que há milênios vem sendo guardado por nossa ordem??

Você se sente capaz de receber agora a chave que abrirá para você a porta dos mais arcanos conhecimentos???

É de sua livre vontade que você toma em seus ombros o fardo do conhecimento universal????

Então seja feita a tua vontade.

Ouça agora, ó postulante, o grande segredo de nossa irmandade, receba agora a guarda da sabedoria eterna:

(Barulho de tambores em crescendo…)

(Silêncio absoluto)

“TODA IDEIA É UM OVO! ”

….

O ano é 1837. Charles Babbage, matemático inglês, divulga pela primeira vez os planos do que chama de analytical engine (“engenho analítico” em tradução livre), e que alguns anos depois teria sua programação esquematizada por Ada Lovelace, também inglesa, filha do famoso poeta inglês Lord Byron. A máquina imaginada por Babbage não tem qualquer uma das tecnologias de apoio hoje existentes nos computadores modernos, mas a concepção lógica da máquina é exatamente a mesma dos computadores de hoje, o que leva alguns estudiosos da área a chama-lo de “o pai do computador” e a Lady Ada de “a primeira programadora”.

A máquina de Babbage (você pode conhecer sua concepção aqui, em inglês) não foi construída em seu tempo. Ele não conseguiu, em vida, angariar apoio financeiro, político ou da comunidade científica em volume necessário. O primeiro computador de múltiplo propósito seria construído mais de 100 anos depois, na década de 1940. Mas em 1991 foi construída no Museu de Ciências em Londres, apenas com materiais e tecnologia disponíveis no início do século XIX, uma versão completamente funcional de sua Difference engine (“engenho diferencial” em tradução livre) a precursora direta da analytical engine, o que demonstrou que teria sido possível a construção de ambas as máquinas no período de vida de Babbage, com suficientes recursos.

Os computadores atuais, criados a partir de 1940, não são “filhos diretos” da máquina de Babbage, eles têm origem independente das pesquisas do matemático. Mas a  ideia de Babbage entrou para o “caldeirão de conhecimento” humano e, mais de cem anos depois de sua manifestação original, se concretizou em um computador de múltiplo propósito e, de quebra, inspirou um clássico da ficção científica (The Difference Engine, William Gibson e Bruce Sterling, 1990) e da formação de toda uma linha de ficção, o steampunk que, basicamente, se trata de histórias com um mundo de pano de fundo onde a máquina de Babbage teria sido construída em seu tempo, ou de outra forma a “era da computação” teria chegado mais cedo para a humanidade.

Por mais besta que pareça, é verdade: toda ideia é um ovo. E ideias são centrais à evolução humana.

Toda tecnologia construída até hoje, da agricultura até a inteligência artificial, pode ser traçada ao mesmo processo básico humano: A humanidade se depara com algo desconhecido ou com um desafio novo, é criada uma necessidade, surge uma ideia para solução, a ideia é experimentada, novas ideias a complementam, e surge a nova tecnologia. Entre a necessidade e a satisfação, entre o problema e sua solução existe sempre a ideia. Este talvez seja o mais valioso e perene tesouro humano.

Imagino que você deve estar pensando algo do tipo “é fácil falar”. Eu sei. O serviço público brasileiro, via de regra, não é um ambiente muito acolhedor para novas ideias. Sua estrutura e cultura tendem mais à cristalização de processos e modus operandi e a uma grande resistência à inovação. É verdade. Mas isso não significa que não haja espaços onde novas ideias  sejam valorizadas. Eu tenho a sorte de trabalhar em um deles. O Inova, aqui do Planejamento, tem sido um lar acolhedor para novas ideias e tem sido fonte de esperanças para aqueles que ainda acreditam ser possível melhorar o serviço público brasileiro. Existem outros. E mesmo que você não trabalhe em nenhum deles, mesmo que seja quase certo que sua ideia não vá ser sequer considerada, que dirá implementada, nada impede que você a divulgue, dentro e fora da máquina pública. A ideia de Babbage só deu frutos cem anos depois, mas você viu a revolução que ela causou?

Feliz natal e um ano novo cheio de novas ideias para todos.

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