DESTRAVANDO AS CONEXÕES 

04 de maio de 2018
 |  Carlos Sousa

O mundo está cada vez mais conectado, com sistemas cada vez mais complexos e interdependentes. Se no passado a falta de informação e a dificuldade de comunicação eram uma barreira, hoje o volume de informação e facilidade em se comunicar se tornaram uma chateação, para dizer o mínimo, de qualquer forma não dá para negar que este mundo em rede facilitou consideravelmente a vida das pessoas.

Mas ainda há oportunidades, principalmente para os governos, vejamos algumas:

  • Conexão entre os governos;
  • Conexão entre as questões e problemas;
  • Conexão entre os servidores públicos;
  • Conexão entre os cidadãos;
  • Conexão entre as ideias.

O ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama devia ter em mente essa situação quando disse: “Entendemos que os programas governamentais são antiquados e inadequados para as necessidades do nosso tempo. Então, devemos aproveitar novas ideias e tecnologia para refazer o nosso governo. ”

Em 2012 ele criou o Presidential Innovation Fellows (PIF) com o objetivo reunir os funcionários mais inovadores do governo para desenvolver em conjunto com os cidadãos soluções para os seus problemas e implementá-las em projetos de até 12 meses, acelerados com o apoio da estrutura do governo.

Sabemos que tecnologia não é nada sem o conhecimento humano e que, em se tratando de serviço público, não adianta nada ter a melhor tecnologia se ela não estiver conectada às necessidades do cidadão. O Estado possui “cabeças” brilhantes que poderiam, desde que seja criado um ambiente propício para isso, criar em conjunto com as comunidades soluções simples para resolver seus problemas.

Dentro do conceito da inteligência colaborativa e desenvolvimento ágil o programa reuniu equipes em um ambiente colaborativo para trabalhar em uma ou mais iniciativas demandadas pelas comunidades. Tudo dentro do conceito “pondo a mão na massa”, e transformando ideias em resultados tangíveis. O programa recrutava pessoas com perfil de empreendedorismo e inovação de dentro e fora do governo para trabalhar com os especialistas de vários órgãos, empresas e agências do governo no planejamento, execução e solução de problemas.

O programa Presidential Innovation Fellows tem 5 pilares:

  • Descoberta centrada no ser humano:

Uma abordagem com foco na resolução de problemas do cidadão. Aplicando técnicas como o Design Thinking, o Design Centrado no Ser Humano, trabalhar para entender como cada cidadão interage com o governo, identificando, na fonte, os problemas que devem ser resolvidos do ponto de vista do cidadão e não apenas dos agentes do governo.

  • Projeto responsivo:

Soluções que podem ser rapidamente testadas e melhoradas de forma interativa e com a preocupação de economizar tempo, esforço e o imposto dos contribuintes.

  • Construção com base no desenvolvimento Ágil:

Trabalhar para resolver problemas complexos em um mundo na qual as exigências mudam constantemente e exigem: capacidade de formar equipes rapidamente, oferecer ciclos curtos de desenvolvimento e comunicação constante entre os envolvidos nas iniciativas e as pessoas a serem atendidas.

  • Indicadores e Métricas de Impacto Social:

Transformar ideias em produtos e serviços que melhoram o governo, sempre medindo o seu impacto na sociedade.

  • Validação com base no Pensamento Lean:

O objetivo final é criar um governo responsivo com soluções e serviços que funcionem para qualquer um e para todos. O sucesso do programa deve ser medido em vidas salvas, recurso dos contribuintes economizados, estímulo à criação de empregos e numa melhor forma do governo servir ao seu povo.

Os projetos desenvolvidos no âmbito deste programa podem ser conferidos no link:  https://presidentialinnovationfellows.gov/projects/

Na França está em efervescência outro movimento que também tem como objetivo reunir pessoas para descobrir soluções simples para um mundo cada vez mais complexo, trata-se do movimento Corporate Hacker (www.corporatehackers.org) iniciado em 2016 e que tem 3 pilares: dar sentido ao trabalho, recolocar o humano no centro das organizações e criar uma economia mais equânime.

Hoje existem na França diversos grupos atuando neste sentido, além dos Corporate Hackers há também Makestorming (www.makestorming.com) e os hacktivateurs (http://hacktivateurs.co), todos com o propósito de reunir pessoas que gostam de pôr a mão na massa (makers), criadores de oportunidades, inovadores, empreendedores, intraempreendedores, e hackers corporativos para transformar o ambiente, compartilhando experiências em rede, promovendo  ações e a inteligência coletiva. O governo francês também tem trabalhado nesta linha, recentemente ele publicou o manifesto pela inovação publica com 12 pontos, sendo 7 valores e 5 desafios.

Os 7 valores são os princípios de trabalho para transformar a cultura da administração francesa:

  1. O Cidadão como prioridade: a partir das necessidades e das práticas observadas no campo;
  2. Abertura: estruturas e métodos descomplicados;
  3. Coprodução: envolvendo as partes interessadas para encontrar soluções práticas;
  4. Ação: seguir a lógica do “fazer”;
  5. Agilidade: testar rapidamente no campo;
  6. Experimentação: Reconhecer o direito de errar;
  7. Impacto: inovar para resolver problemas.

Da experiência obtida nos últimos anos, também surgiram 5 desafios para a França dar um novo passo na difusão da inovação pública:

  1. Produzir e divulgar inovações úteis de forma mais abrangente;
  2. Incentivar a capacidade de inovação de 5 milhões de funcionários públicos;
  3. Abrir a administração para uma participação cidadã;
  4. Associar o humano com o digital;
  5. Transformar as estruturas de serviço público.

Os relatos acima deixam claro que a única forma de vencer a inércia causada pela burocracia do poder público que às vezes se movimenta como um elefante com a perna quebrada é justamente hackear o governo!

De nada adianta centralizar ou integrar a gestão se não há integração entre as pessoas das diversas competências que o governo possui em diversas áreas, a integração entre as pessoas é uma excelente oportunidade reduzir a influência dos silos organizacionais. Os governos têm atualmente ótimas oportunidades para envolver os cidadãos na solução de seus problemas oferecendo como vimos nos exemplos acima, agentes capacitados e tecnologia para aprimorar os serviços oferecendo soluções rápidas, de baixo custo e efetivas para o cidadão. Os governos poderiam promover dinâmicas em que os agentes públicos de diversos órgãos participassem com os cidadãos de oficinas para identificação e definição de soluções para problemas e oferecendo a oportunidade de encontrar soluções em conjunto, pois não é possível resolver um problema apenas sabendo que ele existe, é preciso se colocar no papel de sujeito, sentir e experimentar a situação com quem a vive diariamente para encontrar e resolver a causa raiz de qualquer problema.
O Brasileiro é reconhecido pela sua criatividade e capacidade de se adaptar às situações que não fazem sentido para ele dando um “jeito” nas coisas, isso acontece a todo momento nas mais diversas situações e o que percebemos em iniciativas como a do governo Obama e do governo francês é justamente dar um jeito no governo envolvendo quem tem mais interesse em que ele funcione, o cidadão. A solução para qualquer questão que surge neste mundo complexo não virá de cabeças brilhantes encasteladas e sim da base, tanto do governo quanto dos cidadãos e por isso a proposta é abrir um espaço dentro do governo que crie um ambiente em que o governo, seus agentes, as instituições e os cidadãos possam, de fato se conectar e resolver juntos seus problemas.

0

Posts Relacionados



0 Comentários

Deixe um comentário:

INOVAGOV

Assine nossa revista


POSTS PUBLICADOS

Agencia Mobidick