O tempo, o dinheiro e a economia criativa

O tempo, o dinheiro e a economia criativa

10 de julho de 2018
 |  Talita Dantas

Tempo é dinheiro?

Na distopia O preço do amanhã, de 2011, dirigida por Andrew Niccol, é retratado um cenário futurístico em que a moeda é o tempo. A lógica da sociedade retratada no filme é bastante perversa. Ricos tendem a viver por toda a eternidade, uma vez que têm muito tempo em sua conta bancária. Os pobres, por sua vez, precisam batalhar muito em fábricas para literalmente ganhar o dia de amanhã. Tratando-se de uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Fato é, nem todos os que imaginaram um mundo em que o tempo é a moeda o vislumbraram da mesma maneira. Bancos de tempo espalhados pelo mundo, buscam justamente inverter a lógica de que o tempo de uns valem mais que o de outros. Pensado como um sistema de trocas solidárias, os serviços prestados e recebidos pelos usuários dos bancos de tempo não comportam pagamento em dinheiro.

Como funciona?

Via de regra, ao se associarem, os usuários recebem uma quantia de créditos em tempo para começar a realizar suas transações. No cadastro, também informam que talentos estão dispostos a oferecer. Para ganharem mais créditos, necessitam prestar serviços. Para usufruírem dos serviços oferecidos por outros membros, devem utilizar o crédito já adquirido. O tempo de ninguém vale mais que o de ninguém. A hora de um médico é idêntica a de um mecânico. A da advogada igual a da cabeleireira.

Atribuir igual valor ao tempo de todos não é a única premissa dos bancos de tempo. Admite-se também que todos temos ao menos um talento o qual podemos compartilhar e nos sentirmos realizados por fazê-lo. Não necessariamente um talento se relaciona com a atividade profissional que desenvolvemos, embora não a exclua. Nesse sentido, os bancos de tempo funcionam também como uma ferramenta de autodescoberta, na medida em que nos convidam a refletir sobre o que temos de bom, que nos faz feliz e que gostaríamos de compartilhar com o mundo.

Em Portugal, bancos de tempo já existem há 15 anos. No Brasil, embora presente há menos tempo, em muitos lugares, como Santa Catarina, São Paulo e Distrito Federal, já há diversas comunidades organizadas e imbuídas do espírito de trocar serviços colaborativamente.

Além do foco no paradigma da abundância, outro objetivo dos bancos de tempo é fomentar o ecossistema local. Daí a razão por que não se têm bancos de tempo nacionais.

Projetos sociais

Os bancos de tempo também têm como propósito o desenvolvimento de projetos sociais. O crédito para realização desses projetos vem basicamente de duas fontes: 1) o ingresso de novos membros; e 2) as aulas em grupo. Cada membro quando ingressa gera um saldo de 10 horas. 4 vão para ele próprio, para que inicie imediatamente as trocas e 6 para o caixa do banco, com o qual são remunerados os participantes que colaboram com os projetos sociais.

De igual maneira, ao oferecerem aulas em grupo, os membros geram para o banco um saldo de horas a ser investido em projetos. Isso porque, como cada hora vale exatamente uma hora, um participante que ministre uma aula de 3 horas, receberá por ela exatamente 3 horas, independentemente do número de alunos que compareça à atividade. Em contrapartida, cada aluno irá “pagar” também as três horas de que usufruir. Assim, se tivermos 10 alunos na aula de 3 horas, o saldo total será de 30 horas. 3 vão para o professor, 27 para o banco.

Quer fazer parte?

Cada banco tem suas próprias regras. Se você quer fazer parte de algum, é preciso conferir junto à organização da sua cidade os requisitos para se cadastrar. Se na sua cidade ainda não há nenhum banco de tempo, você pode começar um. Normalmente, os bancos já em funcionamento dão apoio às novas iniciativas. Aqui você encontra mais informações sobre o Banco de Tempo Brasília e aqui  sobre o de Florianópolis.

 

 

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